Fernando Rodríguez nasceu na imensa pampa uruguaia no ano de mil novecentos e dois. Filho de imigrantes logo reconheceu na terra úmida o que um dia mais tarde sempre foi seu. Corria campos com tornozelos livres de quase voar. Dizia que o chão era o seu mais longínquo céu, sendo tão inalcançável a união entre a terra e o azul do horizonte pampeiro. Gostava desde menino de sentir a realidade das coisas com os próprios e inexperientes sentidos, exigindo experimentar. Explorava cada pequena coisa com tamanha minúcia que Fernando Rodríguez e coisa mundana não eram mais que um só suspiro de existência.
Agarrado às coisas do seu mundo, Fernando Rodríguez aprendeu a deixar o mundo falar. Não perdia um único entardecer ocidental, refletindo o vento livremente naqueles campos de um verde pálido. Escutava, sem demoras, bater nas margens o som do rio, pequeno naquela época e incessante como os seus pastos cotidianos. Gostava muito de caçar bicho, pegá-los nas mãos, sentir o cheiro azedo do vaga-lume, do mato, da chuva rio-platense.
Criado sem irmãos, Fernando Rodríguez sempre gostou de ser sozinho no seu mundo. Era nas silhuetas de mundo que ele gostava de conversar, com os seus sentidos reinventados na terra que lhe escorria pelo corpo. Fernando Rodríguez era feliz. Só teve um único medo, paradoxo da sua condição excitante de vida, o medo da dor, física. Por sorte, nunca teve arranhão, machucado, perna quebrada, sarampo, catapora e nunca sofreu de dor de pele nem de cotovelo. Quem sabe no não saber, morava o medo, claro, sem conhecer a razão humana da dor em si mesma, no seu mais sensível existir, Fernando Rodríguez comparava o prazer e temia a dor.
Aos quinze anos apaixonado pela musica, foi sem reservas à escola de musica de Buenos Aires. Escolheu a flauta transversal, não pela herança européia, mas pela pampeira, tanto tempo treinado na arte do vento soprando na pele e na boca, foi. Ali aprendeu outra vez as coisas do seu novo e mesmo mundo de sempre. Foi nessa época que Fernando Rodríguez aprendeu com mais esmero a olhar e a sentir as pequenezas das coisas, cinza era a cidade e poucas margens ruidosas de seu conhecido som mareado, foi obrigado a procurar entre as frestas o seu sempre pedaço de pampa.
Passaram os anos e ele então, cada vez mais dentro da terra, aprendeu musica, viveu entardeceres, passando pela vida à margem do não apreensível, da ilusão urbana de realidade. Criou para si, o mesmo mundo criado a principio para todos nós, com terras, cores, cheiros, luz e gosto de chão.
No entanto, Fernando Rodríguez é, e sempre foi feito da mesma matéria etérea que o apaixona. Em 1988, já quase não sopra a sua música, já quase não ouve os seus ventos, já quase não vê a sua luz ocidental de toda tarde. Fernando Rodríguez envelheceu demais, e feliz. Aprendeu, como ninguém, a matéria de que é feita o mundo. Como ninguém ele mergulhou ali com tanto prazer e curiosidade que não sentir era não ser, e Fernando Rodríguez foi mais que todos no mundo, foi mundo. Sua velhice trouxe mais minúcias. Vive hoje em seu apartamento no décimo andar com seu peixe e suas flores. É dono de uma floricultura. Todos os dias desce até a calçada da frente, caminha com dificuldade e cuida das suas plantas com o mesmo entusiasmo infantil com que corria campos sentindo a terra descalça como ele.
Aos 86 anos, feliz de toda a vida, é violentamente acometido pelo mal do seu século, sem aviso, sem experimentar uma vez que fosse a dor, Fernando Rodríguez está assustado, mas sem medos, é um homem vivido e sabe que voltará ao mesmo chão comprido e eterno de onde veio. Fernando Rodríguez não quer morrer, mas precisa.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Inevitavelmente
Pois é...ela foi saindo da minha vida. Saiu. Mas o seu rosto ainda permanece aqui bem perto dos meus olhos, tão perto, quase dentro de mim. E eu que disse que queria ela assim, que queria ver cada parte do seu rosto tão perto que mim, misturadas comigo mesmo, aqui nesse ponto de vista irreal da sua pele tocando levemente meu desejo de eternidade, e eu que disse tanta sinceridade, deixei ela ir, fui. E você me diz que quem sabe, na melhor das hipóteses, nesse mundo grande de devaneios, idas nunca vindas, eu queria, sem saber se quero, estar, seguir ali naquele lugar ainda aqui, tão perto do seu rosto sorrindo, você diz que eu deveria ignorar a terra ocre, deixar voar minha carne a lugares imaginários, dizer do seu destino, fazer-me parte de algo que não sei, confuso, cair de cara no fim do mundo sem o toque leve de todas as partes do seu rosto. Não me subestime, não diga o que eu sempre sei. Ela vale mais do que o meu desejo, ela é mais que a minha vida de agora, deixa ela ir, deixa doer, estou tentando, estou deixando, estou indo. Pois é...eu vou, sem querer ir, pra onde ela está, inevitavelmente, pra dentro de mim.
domingo, 24 de janeiro de 2010
Ainda não
Estranha condição a do extrangeiro, uma vez de volta, distante sempre do eterno retorno, em busca da sua terra, perde a sua gente, o seu ser duplicado na vida de tantos outros mutantes, ele proprio vai se desvanecendo em quem nunca foi, seguro de estar onde sempre esteve, longe do que, talvez, um dia quis ser. Estranha condição a do extrangeiro, tentando sem confiança, falar o seu já datado idioma, confundido entre sims e nãos que supõe entender, uma vez entendido, uma outra vez dito com tanta clareza, que nessa condição, quem sabe humana, da realidade palpável e não ilusória das coisas, ele tambaleia, calado, tímido, porém curioso, entre o não ser errante, morador do mundo, e o ser arraigado de tantas raizes aprendidas, colhidas no chão, arrancadas da terra pisada. Estranha condição a minha, estranhando o já visto, vendo o tempo, impossível, agarrar-me pelas costas e fazer-me proprietário e senhor do devenir, está em minhas mãos a moldura do meu pedaço de tempo. Estranha, louca e excitante condição a da minha volta, ainda sem lugar, mas dono do tempo, vou pisando raízes e brincando de não ter lar.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
A minha nossa violência de muitos dias
Tenho tantas dúvidas nas mãos e fecho os punhos num soco violento. Sem defesas, vou de encontro a sua cara, abaixe a defesa, não sou mais que um filho, abaixe logo a defesa, renda-se, deixe a minha mão varar em sangue a sua vida, uma marca mais, mais justa, mais minha. Essa é a violência que eu quero, que você não pode suportar, então renda-se, não suporte, me olhe aqui no chão e abaixe a defesa. Quem te fez senhor absoluto de todas as minhas coisas? O mesmo punho fechado, as mesmas dúvidas de agora, as minhas mesmas mãos que eu lanço enfim contra você, me sangraram me cortaram me arrebentaram contra a parede e não tem mais volta, volta agora o meu punho, pra desfechar de uma vez essa violência minha e sua trancada aqui no meu peito. Abaixe a defesa, sujeite-se, não interfira, dê logo a cara, renda-se.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Tus pecas
y me pregunto sabiendo ya de antemano la respuesta, por qué la misma canción suena ahora rara y opaca, por qué no tiene eco mi voz, no tiene eco mi guitarra, el porque que he desdibujado en tus pecas, tus pecas alumbrando otras voces, sin guitarras, sin embargo toco, ya no tengo ganas de amar a nadie, tenés razón, tenías razón, me voy, me estoy yendo, nunca estuve demasiado cerca de tus pecas, nunca estuve, no me podías amar, siquiera tocarme, soy algo palpable, no ves? algo palpable, no me tocan tu manos, seria simple si te hubiese dicho, me tocan tus palabras, no vienen nunca tus palabras, y yo sin saber esperar, y cansado y sin saber esperar, inútil, inútil mi voz cantando desesperadamente, no sé qué estoy haciendo aquí, hace mucho que no estaba, y tus pecas ahora lejos, y yo sin poder amar, y la respuesta que no quiero saber, que nunca te dije, se me viene el mundo encima, vayamos despacio, recién llego, pero no puedo dejar de extrañarte, y tu voz, y tus pecas, ay cómo me gustan tus pecas, soy un niño, un niño, no he crecido, me envejezco y quiero saltar...
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Não ser
Respirou fundo, buscou no chão a resposta daquilo - se não sabia a pergunta. Procurando algo entre as pedras pisadas, deu volta no corpo, olhou distraidamente fingindo seriedade, tateou a luz daquela tarde inútil misturada aos seus pés empoeirados. Tentou ainda voltar, arrastou-se um pouco com o peso de suas vidas passadas, "não dá mais", sentenciou, levantou com esforço os olhos vencidos e pode ver ainda, minimamente, que as sombras daquele caminhar coletivo, às seis da tarde, deixavam marcas tênues clamando-lhe existência, suplicando-lhe, na sua loucura, uma voz clara, um caminhar reto diferente daquela aberração do fim do dia. Foi isso que pensou, pobre. Estava longe e tão perto de casa que as coisas se confundiam. Saiu entrando na casa de sempre. "Não me conhece, ela não me conhece". Com cuidado tirou a mochila num solavanco, deixou-a num canto da casa, aquela mochila que me conhecia mais que qualquer um ali, ia agora ser espectadora da minha derrota, da falência inevitável do meu corpo em farelos, o estranho, ela deve ter pensado , é que ele se deixava vencer sem remorços, não dizia nada, sequer um grunhido malferido, eu já era outro morto privado da solene morte em passeata. Esperei com receio o abraço e o choro frio, o meu nascimento ao contrário, era agora a mãe, a exemplo da cria, que chorava exasperada a volta ao ventre. Estranha condição a minha naquele dia já visto, era só pisar firme naquela casa sem luz, era só sentir o abraço sufocante, desviar os olhos da rua e deixar de ser. Estranho. Não me reconheço. Volto ao cocho ao revés, sem fome, sem sede. Já estou saciado. Deixei lá fora, às seias da tarde, as minhas marcas tênues. Desatei-me com cuidado daqueles braços, tentei exitante enxugar a água daqueles olhos, olhei de novo pro chão, buscando dessa vez a pergunta, tateei fingindo comoção e gritei sem freios desesperadamente, "já não sou", chorando em silêncio.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Calados como sempre
Que estranho idioma o nosso, sem palavras!
Estranhamente, contudo, te entendo. Sei tudo o que você quis dizer, mesmo não dizendo.
Você fala do passado sem memória e de futuros já vividos ainda por vir. No seu transe comedido, na sua exasperação, usa palavras, se nunca fomos disso, se nunca nos falamos, se nunca acreditamos no som forte das coisas ditas sem tempero. Que mal há em seguir calados?
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Quando se está perto do fim
Foi prostrada em leito caseiro que ela me disse num soluço curto de choro, "não quero morrer", e foi-se acabando em fogo calmo. Aquela imagem de mulher, pedindo, sem saber a qualidade da súplica, olhava direto nos meus olhos, e era só eu ouvir a enchurrada do seu lamento sangrando quente em meus ouvidos, e entender cruamente que era eu o homem da casa, que eram minhas as panelas e louças daquele lar inacabado.
Suas mãos em calma arrancavam forte a água dos seus olhos; sem meio-termos, sem voz solene, morria aos pedaços, calava em soluços abafados sem ar.
Me disse sua última frase em silêncio profundo, sua última ordem não cumprida, já segura estava do fim inapelável, "não quero morrer, não posso".
Suas mãos em calma arrancavam forte a água dos seus olhos; sem meio-termos, sem voz solene, morria aos pedaços, calava em soluços abafados sem ar.
Me disse sua última frase em silêncio profundo, sua última ordem não cumprida, já segura estava do fim inapelável, "não quero morrer, não posso".
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Voar sem asas
Nesses dias, vieram como ferro, cortando sem descanço o frio largo da minha pele apodrecida.
Já estava morta qualquer coisa entre nós, mesmo assim, vieram.
Veio a sua voz surda trazer-me o descaso, veio, sem trégua alguma, trazer-me a desesperança.
Vieram suas palavras inventadas dizer-me nada e coisa nenhuma.
Veio o seu silêncio tirar-me do sério, arrancar-me a cabeça, explodir-me o coração.
Veio o seu corpo sem jeito atolar-me inteiro na lama, sorrir-me um sorriso absurdo, sem gozo.
Veio você sem vir, me enlouquecendo à distância, me enchendo de sal.
Estou pesado como a lua!
Padeço da inútil vantagem de voar sem asas.
E ainda insisto em cair.
Já estava morta qualquer coisa entre nós, mesmo assim, vieram.
Veio a sua voz surda trazer-me o descaso, veio, sem trégua alguma, trazer-me a desesperança.
Vieram suas palavras inventadas dizer-me nada e coisa nenhuma.
Veio o seu silêncio tirar-me do sério, arrancar-me a cabeça, explodir-me o coração.
Veio o seu corpo sem jeito atolar-me inteiro na lama, sorrir-me um sorriso absurdo, sem gozo.
Veio você sem vir, me enlouquecendo à distância, me enchendo de sal.
Estou pesado como a lua!
Padeço da inútil vantagem de voar sem asas.
E ainda insisto em cair.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Do que sempre foi
Vem a mão grossa da saudade bater na cara da gente.
Vem outra vez mais encharca-nos nesse barro ainda morno.
Destapa esse frasco seco,
Aguça meus ouvidos,
Faz-me de novo ver os meus olhos meninos, com a cara no chão, com o peito rente molhado a mijo.
Vem me fazer chorar!
Vem outra vez mais encharca-nos nesse barro ainda morno.
Destapa esse frasco seco,
Aguça meus ouvidos,
Faz-me de novo ver os meus olhos meninos, com a cara no chão, com o peito rente molhado a mijo.
Vem me fazer chorar!
À espera
Espero conformado a minha hora da vida, como quem espera a sua hora da morte, suando frio, tremendo imóvil. Rezo em vão textos desacreditados, deixo à sorte meu pedaço de morte em vida.
Que há de se fazer com todo o tempo desperdiçado, que há de se fazer com toda a ternura, que há de se fazer com toda a lembrança lembrando mal acostumada na espera da gente?
Me resta a certeza da minha hora da vida, o lamento triste existindo em mim até a minha hora da morte, na minha espera falecida.
Que há de se fazer com todo o tempo desperdiçado, que há de se fazer com toda a ternura, que há de se fazer com toda a lembrança lembrando mal acostumada na espera da gente?
Me resta a certeza da minha hora da vida, o lamento triste existindo em mim até a minha hora da morte, na minha espera falecida.
domingo, 4 de janeiro de 2009
Sem os pontos
É devagar que eu desisto, é lentamente. É perdendo de vez a ilusão de maturidade. Vou deixando que ela me convença que não dá mais, que não tem mais volta, do café ao lamento sem gozo da janta, deixo claramente, desisto, insatisfeito e sem mastigar. Perco a fala, me confundo, vou me entregando antes do começo. Pude somente esboçar uma furia vaidosa, dirigida a não sei quem. Não dá, não sei fazer, não quero. Já me cansei de falar, de escutar sua voz solene sua voz eterna, inalcansável, dona da casa e até da comida. Me cansei dessa voz ingerida, absorvida no sangue, incrustada no meu corpo como o cheiro azedo dessa casa. É lentamente que eu morro, é muito devagar que ela me faz perder a vida. Vem com a chuva, essa voz, esse cheiro, essas lágrimas eternas, esse ar insuportável chuvendo em mim grosso, desde o céu e entrando pelas janelas e portas fechadas, insinuando-se entre as frestas, por debaixo das coisas. Vem trazer a chuva pra dentro de mim, vem me molhar de sal, vem me matar, vem me calar, vem, lentamente, me fazer desistir, me fazer lamentar, não dá, não sei fazer, não quero.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Rascunho
Vi, quando passou por mim, que dessa vez não olhava pro chão, como fazia sempre. Hoje, seus olhos caminhavam sem desviar do traçado reto que já tinha criado na noite anterior. Tinha na cara esse ar raro da certeza de algo, ou, nesse caso, esse ar asfixiante do desejo, seguro estava de encontrar o que tinha ido buscar. Era claro que ele queria viver nesse instante todo o seu resto de vida. Passou por mim ser ver-me, e eu por fim o vi por primeira vez, a meu irmão, a mim espelhado naquele quase homem ainda imaturo, virgem de todos os sexos.
Era já o dia seguinte quando cheguei e imaginei toda a cena, nesse dia já tinha caído outra vez, e seus olhos já se arrastavam uma vez mais. Ele seguia caminhando diante de mim que não estava ali. Caminhou até a porta do pátio, minha casa era pequena, e entrava muita luz pela janela, talvez foi por isso, pela luz, nunca se sabe bem essas coisas, não se conhece a vontade dos outros. Estava um pouco aberta a torneira, lembro que aquele gotejar me incomodava bastante, cada gota era uma noite perdida, uma depois da outra caíam em sincronia, guiavam seus pés num ritmo determinado. Depois não se escutava mais, já não se escutava nada, era um silêncio pesado. Eu via que ele seguia parado, desenhando com as mãos sobre o céu, apontando algo. Pintava sempre coisas amenas, trabalhadas aos poucos, dessa vez já tinha pintado o quadro, na noite anterior, já tinha pintado tudo, a luz da janela, seus olhos fixos, o ar denso. Esse irmão eu não conhecia até aquele momento. O estranho é que no mesmo instante - saberia de tudo depois - eu também olhava o céu, sem muito interesse, e foi aí que atendi o telefone, aturdida por vê-lo com vida, minha mãe me descrevia a mesma cena que acabei de presenciar, um dia depois. Continuava parado ali, imóvil com o quadro já pintado. O que aconteceu depois não se pode descrever. Havia, lembro, muita luz. Era tudo branco. Já quase não via nada. Caminhei um pouco, queria ver melhor. Nada. Estava cego pela luz. Era essa luz grossa, sufocante. Tentei tapar com as mãos a cara, era impalpável tudo, como um sonho relembrado. Mas tinha certeza, eu estava ali. Foi quando tentei tocar-lhe, entender que era toda aquela luz, por que não lhe fazia mal? Depois, no outro dia, quando cheguei a casa, vi bem tudo, ele estendia o braço, agarrava algo, em meio a toda aquela cegueira conseguia ver outra presença ali, imaginada na noite anterior, desenhada. Baixou o braço, os olhos e já pude ver sem dificuldade que entrava uma vez mais encurvado, arrastado e por fim me via chegar, entrando pela porta sem vê-lo, como sempre fazia.
Era já o dia seguinte quando cheguei e imaginei toda a cena, nesse dia já tinha caído outra vez, e seus olhos já se arrastavam uma vez mais. Ele seguia caminhando diante de mim que não estava ali. Caminhou até a porta do pátio, minha casa era pequena, e entrava muita luz pela janela, talvez foi por isso, pela luz, nunca se sabe bem essas coisas, não se conhece a vontade dos outros. Estava um pouco aberta a torneira, lembro que aquele gotejar me incomodava bastante, cada gota era uma noite perdida, uma depois da outra caíam em sincronia, guiavam seus pés num ritmo determinado. Depois não se escutava mais, já não se escutava nada, era um silêncio pesado. Eu via que ele seguia parado, desenhando com as mãos sobre o céu, apontando algo. Pintava sempre coisas amenas, trabalhadas aos poucos, dessa vez já tinha pintado o quadro, na noite anterior, já tinha pintado tudo, a luz da janela, seus olhos fixos, o ar denso. Esse irmão eu não conhecia até aquele momento. O estranho é que no mesmo instante - saberia de tudo depois - eu também olhava o céu, sem muito interesse, e foi aí que atendi o telefone, aturdida por vê-lo com vida, minha mãe me descrevia a mesma cena que acabei de presenciar, um dia depois. Continuava parado ali, imóvil com o quadro já pintado. O que aconteceu depois não se pode descrever. Havia, lembro, muita luz. Era tudo branco. Já quase não via nada. Caminhei um pouco, queria ver melhor. Nada. Estava cego pela luz. Era essa luz grossa, sufocante. Tentei tapar com as mãos a cara, era impalpável tudo, como um sonho relembrado. Mas tinha certeza, eu estava ali. Foi quando tentei tocar-lhe, entender que era toda aquela luz, por que não lhe fazia mal? Depois, no outro dia, quando cheguei a casa, vi bem tudo, ele estendia o braço, agarrava algo, em meio a toda aquela cegueira conseguia ver outra presença ali, imaginada na noite anterior, desenhada. Baixou o braço, os olhos e já pude ver sem dificuldade que entrava uma vez mais encurvado, arrastado e por fim me via chegar, entrando pela porta sem vê-lo, como sempre fazia.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Bárbara
Me doy vuelta, porque me tenia que dar vuelta, tenia que mirar, tenia que verla...la vi por primera vez, o por última vez, tan parecidas eran las dos cosas, la vi caminando con su ya conocida manera de caminar. Llevaba un vestido puesto, casi negro y gafas, ocultando quizás unos ojos sin vida, y yo anticipando cada gesto suyo, la veía dejar las flores en su própia tumba, tan igual era a la muerta, tan parecida a su modo de estar, no más, parada, quieta, yo confundido, la miraba como si ella fuera mis recuerdos muertos, mi mujer fallecida, mi vida creada, y por un rato pensé que tal vez ella tenía otra vida que no conocia, como si todavia estuviera viva, y que la podía ver, la podía tener, y ciego y sin tacto, la seguí disconforme.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Meu único modo
Trinta minutos e seis meses durou aquela viagem. Era o meu único modo de lidar com as coisas, pensar na espera, no caminho, alongar a estrada ao infinito, imaginar uma vida para cada pequeno e invisível pedaço de terra que íamos percorrendo, eu sozinho como sempre, fugindo da presença morta que me distraía, de qualquer sussurro que encurtasse aquela vida criada, aquela viagem lenta de meses recordados entre passar de árvores e cercas, seguia querendo não chegar, atrasar um pouco mais, desconstruir intensamente a chegada, o sentido incompreensível daquele caminhar. Eu, buscava ali, no ir-se escapando do asfalto e dos detalhes passados que deixava, o seu rosto reconstruido no rosto de outras, nos grãos de terra, nos trinta minutos já vividos há tempos, na ilusória espera da sua indiferença irremediável.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
O que sobra
Resta, meu caro Vinícius, acima de tudo, esta vontade desamparada de voltar a lembrar. Resta esta insônia ao contrário.
Resta, aqui comigo, o peso arrastado da maturidade, a indiferênça do meu idioma falso.
Resta inclusive, e outra vez mais, este cheiro de ônibus, estrada e descaso.
Resta, sempre, o meu medo de olhar.
Resta, aqui comigo, o peso arrastado da maturidade, a indiferênça do meu idioma falso.
Resta inclusive, e outra vez mais, este cheiro de ônibus, estrada e descaso.
Resta, sempre, o meu medo de olhar.
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Outra vez mais
Cada despedida são várias, estou seguro. Cada uma carrega em si a incerteza da volta, a dúvida da insensibilidade, poderia ter vivido mais, poderia ter sentido mais, ser menos... cada olhar desviado são todos os olhares passados, incomprendidos, criando uma vez mais a falta de sentido do último beijo, da última palavra inútil, da tentativa de terminar nunca mais ali. Cada despedida é um estar perto do que foi um dia, não o fim, mas outra coisa, inventada e esquecida lentamente pela falta de vontade, pelo desânimo, por uma maldade sem culpa desejando que nâo fosse nunca e que acabasse sempre no mesmo instante em que nasceu. Cada despedida são várias vidas inventadas.
terça-feira, 5 de agosto de 2008
Versões do mesmo tema
Eu poderia viver aí, calado, num canto qualquer da sua boca.
Poderia viver no silêncio da sua voz, recriando surdamente seu incansável sotaque infantil. Poderia viver sem o gosto digerido da tua língua e do nosso sexo, viver no toque imperceptível de seu cabelo em minha boca, ou viver ainda na sua carícia descuidada.
Nos seus olhos fechados não posso! Não posso sem essa espera a que os meus se acostumem à penumbra grossa do nosso quarto, a fim de ver lentamente, apalpando quase, suas costas avermelhadas, suas muitas marcas de inocência.
Não posso sem essa pouca luz, sem esse movimento involuntário do meu rosto em seu corpo ou seria do seu corpo em mim, tão pouca luz há sempre aqui entre nós, nesse quarto noturno, você sempre com os olhos fechados, não posso sem seguir buscando nessas suas pequenas imperfeiçoes o sentido pálido do meu amor platônico.
Não era a pouca luz, o que me calava ali, eram os meus olhos que mudavam, ou aquele rosto infantil que clareava pouco a pouco o meu quarto cinza.
Era o detalhe da sua boca e o seu olhar distraído que não se fixava em nada, apenas, e apesar de tudo, em meus olhos, ou na sua própria imagem que via duas vezes em mim, pequena e redonda, tão perto estava de meu rosto que era como olhar-se a sí mesma, sentir a própria respiração na pele.
Abria seus olhos ao máximo, e ali me enxergava a mim e àquele tom amarelado, vindo talvez de seus olhos fechados, iluminando seu rosto quase por inteiro, e à sua pele, salpicada de um vermelho claro, como o outono seco la fora.
E logo o meu rosto refletido olhando a mim e a ela simultaneamente, confundido na largueza daquele momento, daquele piscar de cílios que me distraíam e me traziam de novo ao meu quarto, à minha janela branca, ao meu egoísmo de sempre, ao meu silêncio.
Poderia viver no silêncio da sua voz, recriando surdamente seu incansável sotaque infantil. Poderia viver sem o gosto digerido da tua língua e do nosso sexo, viver no toque imperceptível de seu cabelo em minha boca, ou viver ainda na sua carícia descuidada.
Nos seus olhos fechados não posso! Não posso sem essa espera a que os meus se acostumem à penumbra grossa do nosso quarto, a fim de ver lentamente, apalpando quase, suas costas avermelhadas, suas muitas marcas de inocência.
Não posso sem essa pouca luz, sem esse movimento involuntário do meu rosto em seu corpo ou seria do seu corpo em mim, tão pouca luz há sempre aqui entre nós, nesse quarto noturno, você sempre com os olhos fechados, não posso sem seguir buscando nessas suas pequenas imperfeiçoes o sentido pálido do meu amor platônico.
Não era a pouca luz, o que me calava ali, eram os meus olhos que mudavam, ou aquele rosto infantil que clareava pouco a pouco o meu quarto cinza.
Era o detalhe da sua boca e o seu olhar distraído que não se fixava em nada, apenas, e apesar de tudo, em meus olhos, ou na sua própria imagem que via duas vezes em mim, pequena e redonda, tão perto estava de meu rosto que era como olhar-se a sí mesma, sentir a própria respiração na pele.
Abria seus olhos ao máximo, e ali me enxergava a mim e àquele tom amarelado, vindo talvez de seus olhos fechados, iluminando seu rosto quase por inteiro, e à sua pele, salpicada de um vermelho claro, como o outono seco la fora.
E logo o meu rosto refletido olhando a mim e a ela simultaneamente, confundido na largueza daquele momento, daquele piscar de cílios que me distraíam e me traziam de novo ao meu quarto, à minha janela branca, ao meu egoísmo de sempre, ao meu silêncio.
domingo, 29 de junho de 2008
Imcompleto...
Não está dentro de mim, não vem daqui essa vontade de rodar. Nao sei dançar! É a chuva que molha meus pés, que encharca meu corpo. É a chuva densa daqueles lados de lá, de água negra e avermelhada, é ela que cai em mim. Tenho ainda o seu gosto e o seu ruído surdo, dessas tardes quentes, da minha janela sem vidros. Não está dentro de mim isso que me faz querer chorar, isso que tira meus pés do chão, que escorrega devagar o piso sob mim. O que é essa saudade do som de uma terra, surda aos ouvidos desacostumados, o que é a ausência da palavra? Qual é o vazio que nunca soube porque sempre esteve comigo? Qual a única certeza que me faz rodar...?
terça-feira, 10 de junho de 2008
Bastante
Que porçao de vida seria essa que nao transborda, que cabe conforme. Essa coisa sem nome que se diz felicidade, que me olha de longe e nao busca nada em mim, nao enxerga depois de meus olhos. Que seria isso senao uma vontade falsa, um desejo inconsistente de vida. Nao blasfemo contra lares incontestaveis, nao quero ser o tambem falso suicida. Mas digo da necessidade de morte, do incontido, do nao ser, aquilo que falta e que sobra na beleza e tristeza do mundo.
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