quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Outra vez mais

Cada despedida são várias, estou seguro. Cada uma carrega em si a incerteza da volta, a dúvida da insensibilidade, poderia ter vivido mais, poderia ter sentido mais, ser menos... cada olhar desviado são todos os olhares passados, incomprendidos, criando uma vez mais a falta de sentido do último beijo, da última palavra inútil, da tentativa de terminar nunca mais ali. Cada despedida é um estar perto do que foi um dia, não o fim, mas outra coisa, inventada e esquecida lentamente pela falta de vontade, pelo desânimo, por uma maldade sem culpa desejando que nâo fosse nunca e que acabasse sempre no mesmo instante em que nasceu. Cada despedida são várias vidas inventadas.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Versões do mesmo tema

Eu poderia viver aí, calado, num canto qualquer da sua boca.
Poderia viver no silêncio da sua voz, recriando surdamente seu incansável sotaque infantil. Poderia viver sem o gosto digerido da tua língua e do nosso sexo, viver no toque imperceptível de seu cabelo em minha boca, ou viver ainda na sua carícia descuidada.
Nos seus olhos fechados não posso! Não posso sem essa espera a que os meus se acostumem à penumbra grossa do nosso quarto, a fim de ver lentamente, apalpando quase, suas costas avermelhadas, suas muitas marcas de inocência.
Não posso sem essa pouca luz, sem esse movimento involuntário do meu rosto em seu corpo ou seria do seu corpo em mim, tão pouca luz há sempre aqui entre nós, nesse quarto noturno, você sempre com os olhos fechados, não posso sem seguir buscando nessas suas pequenas imperfeiçoes o sentido pálido do meu amor platônico.


Não era a pouca luz, o que me calava ali, eram os meus olhos que mudavam, ou aquele rosto infantil que clareava pouco a pouco o meu quarto cinza.
Era o detalhe da sua boca e o seu olhar distraído que não se fixava em nada, apenas, e apesar de tudo, em meus olhos, ou na sua própria imagem que via duas vezes em mim, pequena e redonda, tão perto estava de meu rosto que era como olhar-se a sí mesma, sentir a própria respiração na pele.
Abria seus olhos ao máximo, e ali me enxergava a mim e àquele tom amarelado, vindo talvez de seus olhos fechados, iluminando seu rosto quase por inteiro, e à sua pele, salpicada de um vermelho claro, como o outono seco la fora.
E logo o meu rosto refletido olhando a mim e a ela simultaneamente, confundido na largueza daquele momento, daquele piscar de cílios que me distraíam e me traziam de novo ao meu quarto, à minha janela branca, ao meu egoísmo de sempre, ao meu silêncio.

domingo, 29 de junho de 2008

Imcompleto...

Não está dentro de mim, não vem daqui essa vontade de rodar. Nao sei dançar! É a chuva que molha meus pés, que encharca meu corpo. É a chuva densa daqueles lados de lá, de água negra e avermelhada, é ela que cai em mim. Tenho ainda o seu gosto e o seu ruído surdo, dessas tardes quentes, da minha janela sem vidros. Não está dentro de mim isso que me faz querer chorar, isso que tira meus pés do chão, que escorrega devagar o piso sob mim. O que é essa saudade do som de uma terra, surda aos ouvidos desacostumados, o que é a ausência da palavra? Qual é o vazio que nunca soube porque sempre esteve comigo? Qual a única certeza que me faz rodar...?

terça-feira, 10 de junho de 2008

Bastante

Que porçao de vida seria essa que nao transborda, que cabe conforme. Essa coisa sem nome que se diz felicidade, que me olha de longe e nao busca nada em mim, nao enxerga depois de meus olhos. Que seria isso senao uma vontade falsa, um desejo inconsistente de vida. Nao blasfemo contra lares incontestaveis, nao quero ser o tambem falso suicida. Mas digo da necessidade de morte, do incontido, do nao ser, aquilo que falta e que sobra na beleza e tristeza do mundo.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Mi casa

Es inutil. Esa mirada no me sirve más. Esa mirada nunca me ha ayudado. Ya se terminó el tiempo de miradas. Asi no me ayudás, ya no podés. Sigo solo buscando mis pequeñas cosas en tu mundo. Vos me has dejado aca parado. Me has visto de boca abierta, pero mudo y sin oidos para tu lengua extranjera. Es inutil, hablo otro idioma. No me mires así, no me juzgues. No cierres los ojos. Es inutil. Dejame seguir guardando estas extravagancias, dejame cuidar de mi casa. Es con esto, con estas inutilidades que he vivido lejos de ti, con estas pobres formas sin vida que creo mi felicidad, de a poquito, muy lentamente, cosechando todavia en tu hogar. Es así que invento mi pedazo de vida sin vos, con mis miles y miles de pequeñas cosas tuyas.

domingo, 25 de maio de 2008

Queria dizer...

Queria dizer, minha falta de tato, meu limite de mim. Essa coisa, invisível, contendo meu entorno, protegendo o ar do meu frio denso. Isso. Esse hálito sem gosto, seco, não reprimido, que volta a mim numa vingança imediata das coisas que disse, secando-me as lágrimas dos olhos, queimando meu estômago, revolvendo tudo que comi calado. E esse quase vômito é o pago da minha falta de tato. Isso te contava, isso queria dizer. É como a culpa por ver meu ego, arrependimento de mostrá-lo a mim, agrandado. Mais devagar voce diz? Meu tempo?

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Necessitade de algo

Necessitava mais. Queria uma dose mais de amor criado, dessa coisa sem tempo que ele ia inventando entre os dois. Era pouco, pensava, nao bastava a troca de fluidos, a fuga fortuita entre falas absurda de desamor, nao bastava um sorriso na cara, o cheiro de gozo. Criava algo mais, dilatava o tempo do comer e do saborear, cuspia fora o gosto de terra, convertia o barulho da chuva em melodia pensada, preso a um ser distante dele, perdido em algum lugar da historia. Seguia insuportavelmente seu desejo de amor inventado, palido, perdendo do amor seu casual jogo de sombras e aparencias.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Esquiva

Muito tempo passei com meu egoismo, te apagando, te esquivando, desmisturando o mundo. Respirava do seu rastro o pó acido da desesperança, do esquecimento. Queria matar algo em mim, algo alheio, incrustado minusiosamente em minha pele e em meu cheiro saturado, tao ligado a meu ser, tao pertencente a mim, que mata-lo seria um suicidio consciente. Mas era preciso morrer uma morte rapida, era preferivel cometer um crime insano que seguir privando-me de ar, seguir afundado na poeira de seus pés caminhando. Nao pude, nao tive maos fortes, a corda atada a mim nao foi o bastante, nao pude cortar-me em pedaços, nao fui capaz de saltar do decimo andar, rasgar-me as entranhas, destroçar-me. Matei-me pouco, superficialmente. Moribundo e mais ameno, vi meu absurdo egoismo, meu destino guiado por olhos torpes e sujos de seu suor, de meu fracasso, nao pude morrer nem matar-te. Voce segue viva sem mim, sem meu sopro. Te dei as costas covarde, para que rasgasse com as unhas meu corpo ao contrario, voce nao conseguiu, tampouco soube o que fazer naquele momento. Era preciso um ranger de dentes, ou uma troca de olhares. Nada. Nao houve nada entre nós. Nao temos lugar, nao temos mais historia, nao temos prazer em meu egoismo. Era preciso matar-me.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Ilusao Amarela

Bailaba. Movia o corpo sem pudores com violencia ruidosa, deixando todos estáticos ali, em suas danças mediocres sem cor, ela bailaba amarela, um amarelo sonoro que reverberava em mim, sujeitando meus olhos a uma dança que nao sabia ate entao, seguindo seus cabelos loiros, conhecendo pouco a pouco os seus contornos translucidos, iludindo o tempo e o espaço, movimentando-se em meus olhos lentamente, desenhando-se a mim em um fundo escuro, com lapis brando, um permanente rabisco, acompanhando seu grito de vida, seu violento bailar extasiado. Fui me afundando ali, apagando os bordes de minha visao, borrando o excesso de luz, esquecendo involuntariamente tudo que nao fosse minha ilusao amarela, minha ilusao sonora, porque já era minha aquela dança, já era meu aquele contorno, já era minha aquela irrefreavel vontade de vida.

sábado, 3 de maio de 2008

Desejo com saudade

Está tudo aqui, nesse meu brinquedo azul refletindo seus olhos redondos de flor. Está tudo aqui nessas pequenas coisas intangiveis. Um hoje repassado por mim, estremecendo meu corpo e meu desejo impotente de voltar a ver, de seguir embriagado seus tortos passos inseguros, seu caminhar instavel como um voo raso de garça. Que beleza eu via ali! Era um espetaculo incalculavel, ver-te e seguir seus movimentos de menina, sem medos alheios, como quem balança desprevenida de um galho de arvore seca, como quem caminha por sobre uma fina linha imaginaria, traçada rigorosamente reta, um cair a cada segundo, um quase destroçar-se, sentir-se livre da gravidade do mundo, seguir apenas, com o peso do seu corpo. Está tudo aqui, na sua quase presença. Esse caminhar, essa troca de passos, esse corpo desnudo, talhado molde de minhas maos e de minha boca saciada. Está tudo aqui, na sua quase presença intacta e ausente de vida. Esta tudo nesse sentimento que vem as vezes, seguido de um cavar de terras e passados, de um insistente desejo de maturidade, caminhando comigo um dia inteiro, ao meu lado como um braço ou um som relembrado, torto, esse som familiar de seus pés em meu quarto escuro. Voce é essa sua presença sem vida, voce é meu brinquedo azul, suas palavras andantes, é minha saudade e minha linha imaginada.

Maos sedentas

Buscar a dor seria absurdo, encontrar prazer em cavar a terra com maos conscientes, permanecer imovel em postura quadrupede com as maos em frente ao rosto, afundando-se em chao molhado, sentir esse cheiro de grama e barro, afundar-se ai com boca sedenta...seria absurdo. Quanta calma ha em sentir-se unico dono inalcançavel do seu proprio desamparo, de sua propria fonte de dor. Deus e filho num unico corpo castigado, dilacerado entre saliva e dentes.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Taça de café

Balançava friamente a taça de café, me via desfigurado e torto na pouca luz refletida de dentro da taça, se passasse uma onda por todo meu rosto, descompondo olhos e bocas, se passasse uma onda indo a chocar-se com meu mundo emparedado pelos bordes de uma minuscula taça branca, voltando de novo a mim, começando agora pela garganta, suplicando um grito, logo pregando minha boca muda com grampos de mulher, para desgrenhar de vez meus cabelos já revoltos pelo vento e por anos de embriaguez, e nesse movimento seguisse, nao fosse por vontade de minha mao direita, que cansada já do jogo, o interrompia para em seguida inventar outro, menos deliberado, vindo de fora, de tras de mim, de minhas costas sem luz, se passasse uma onda por todo meu corpo e entrasse em meu cranio, passando antes pelos orificios de minhas orelhas, seria um jogo fantasioso, descobrir mundos e inventar historias para os primeiros sons e palavras, vindos de passados vividos, ainda nao mortos, chegando a mim timidamente, imaginando quem sabe uma frieza minha, uma prepotencia minha por nao querer dar volta na cadeira, nao querer seguir contando historias, seguir aumentando o alvoroço de sons e desejos explicitos, mas nao era assim, eu os escutava com aprecio, como se os visse, como se os tocasse, a garrafa de vidro resvalando insegura sobre a mesa do bar, esse som opaco, cheio de outros menores como quem carrega consigo uma bagagem enorme em uma viagem de trem, as vozes graves e femininas que se confundem em um canto infantil, batendo em mim como as ondas de minha taça de café frio, despertando-me de minha consciencia, se passasse uma onda por todo meu corpo, quanto historia haveria naquele som fastidioso da maquina de café, no pedido do homem alto da mesa ao lado, no latido do cachorro que viria da rua e seria tao claro e verbal seu pedido esfomeado, que confuso eu nao saberia se estava ainda na porta de entrada ou já a meu lado, latindo e falando coisas sem sentido, e aquele cachorro seria o meu cachorro, que me seguia, já certo do abandono, porque eu já nao podia mais, já nao suportava mais o seu ruidoso desejo de vida, e ele sabendo minha decisao, tentaria sem sucesso um ultimo pedido de clemencia, eu ali parado, frente a taça de café, se passasse uma onda por todo meu rosto, se passasse uma onda por todo meu corpo, descompondo olhos e bocas e certezas, meu passado quem sabe seria de novo vivido, por mim contado, ou talvez cego e mudo, seguria parado entre sons e uma taça de café.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Despedidas

Nao sei por que corria, por que seguia passo a passo a corrente de minha rotina criada. Nao têm sentido as coisas feitas por ultima vez. Simplesmente seguia. Meus passos eram os mesmos, o mesmo tênis vermelho a mesma calçada a mesma lagoa suja. Mas à medida que meus pés iam deixando um a um o chao firme, saltando em vôo rapido para cair outra vez em terra nova, bucando talvez um outro caminho mais adiante, ia deixando coisas ali, naquele lugar já velho, ia me desfazendo, me largando me lembrando. Nao têm sentido as coisas feitas por ultima vez. Por que corria se já nao era o mesmo, se já era de novo um menino sem vicios sem futuro. Nao sabia em que epoca viver, em que momento especifico, se naqueles tempos de lagoas e calçadas ou se nos meus tempos de incompletudes e futuros. Por isso seguia, penso agora, seguia no espaço de tempo entre um levantar de calcanhares inconscientes e o choque ou caida ao piso sem contentamentos. Esse dia veio como muitos outros viriam depois e mesmo antes quando eu nao suspeitava que haviam chegado, que haviam estado; os dias sem gloria, os dias sem gozo, os dias sem sentido de despedidas.